“Não peça nada ao seu filho e filha que você não seja capaz de fazer”, diz Marcelo Cunha Bueno | Noticias

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“Não peça nada ao seu filho e filha que você não seja capaz de fazer”, diz Marcelo Cunha Bueno
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Marcelo Cunha Bueno: A escola é engessada. Por isso, os jovens se entediam (Foto: Divulgação)

 

Marcelo Cunha Bueno é educador há cerca de 20 anos e apresentador do Vigiando a Vovó, reality show do GNT. Em seu canal no Youtube, o ConversacomMarcelo, dá dicas de educação para pais e filhos e aborda temas como culpa, limites e transgressões. 

Ele acaba de lançar o livro No Chão da Escola: Por uma Infância que Voa (Editora Passarinho) em que fala sobre educação infantil, importância da escola na formação compartilhada e presença da família no desenvolvimento das crianças e adolescentes.

Leia o bate-papo do autor com a GQ Brasil:

Em seu livro, você fala de grifes de escolas e de escolhas que não estão exatamente ligadas à educação. Que fatores as famílias precisam levar em conta nesta escolha?
Essa é uma decisão bem difícil. Na verdade, a escolha não termina quando a criança ingressa, finalmente, na escola. A escolha é uma afirmação cotidiana que reflete o nosso modo de vida que tem sido cada vez mais plástico, adaptável. A escola, se pensarmos em sua estrutura histórica, social, pedagógica, é bem engessada: parte do mesmo pressuposto de organização familiar, de aprendizado, de ensino. Essa plasticidade não combina com o engessamento. Por isso, os jovens se entediam na escola. Perdem o interesse, pois a escola não dialoga mais com eles, seus gostos, desejos e sonhos. A escola privada transforma qualquer aprendizado em produto, em discurso genérico. O que significa educar para o século XXI? O que é ser inovadora? O que é preparar crianças para o futuro? Como não temos essas respostas, inventam-se respostas: a tecnologia, as aulas extracurriculares, habilidades sócio-emocionais. Para mim, inovação é a simplicidade. Portanto, acreditar na intuição quando se visita uma escola é a melhor dica que dou. Entre no espaço, escute as narrativas produzidas pelos espaços e suas organizações, entenda o que está por trás dos discursos de quem te vende esse serviço, veja o rosto das crianças que frequentam esse lugar. Mas sinta a luz, o aroma, o calor e a música da infância. Porque é cada um desses elementos que fará diferença no dia a dia e ajudará a sua criança a ser mais consciente de seus processos de aprendizagem.

Em seu livro, Marcelo Cunha Bueno afirma: As escolas devem se afirmar como espaços realmente democráticos (Foto: Divulgação)

 

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Você fala que a escola é o “espaço do múltiplo”. Como acha que elas devem lidar com as diferentes configurações das famílias – compostas por dois pais, duas mães, pais solteiros, mães solteiras, por exemplo - já que muitas reproduzem valores que não coincidem com as mudanças na sociedade?
As escolas devem se afirmar como espaços realmente democráticos, sem categorizar os sujeitos. Isso significa que devem sair do lugar comum que tudo determina (o inclusivo, a síndrome, o diagnóstico, o bom e o mau aluno) e se abrir às possibilidades de relação. Se entendermos que educação é relação, libertaremo-nos da vontade de controlar o outro pela produção discursiva de identidade. A escola deve repensar seu vocabulário também. Sabe aquela reunião de “pais”? Esse é uma das dezenas de exemplos que posso te contar. Mudar as palavras que usamos na escola transforma as relações que são afirmadas nela. Multiplicidade é o diverso, a diferença, o múltiplo! Diferente de sermos plurais: muitos dos mesmos (dominantes).

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Em um dos seus vídeos você fala sobre adultos como referências para as crianças... Que conselho daria para os pais na hora de explicar aos filhos sobre gênero, etnia, crenças religiosas, identidade, sexualidade?
Talvez seja a questão mais complexa que lidamos nos tempos atuais e que se estenderá por muito tempo. São temas complexos refletidos de forma superficial e pouco empática. Todo mundo quer que seu filho, ou filha, cresça respeitando diferenças. Mas as crianças não veem isso no cotidiano: a televisão reproduz (ainda) papéis machistas em seus desenhos e venda de brinquedos; pais e mães xingam outras pessoas no trânsito; pessoas se referem às demais usando piadinhas preconceituosas; políticos não nos dão exemplos de decência. Sobra para a escola e para as famílias. Então, temos de lembrar que a coerência daquilo que se quer e que se pratica é o principal ponto. Não peça nada ao seu filho e filha que você não seja capaz de fazer e ser.

Você vê uma diferença entre a relação dos pais e das mães com a educação?
Gosto de pensar e de chamar a atenção de que essas diferenças são complementares. Há coisas do universo materno e outras, do paterno. Mas isso não é um problema. O mais importante é que o amor não encontre fronteiras para se expressar na hora de educar uma criança. Não importa se é um pai ou uma mãe: dar amor é a costura que constituirá a relação da criança com seus pares e mundo!

Você comentou que falta música, arte, livro, reconexão sensível com o outro, exercer gratidão... Você acha que este papel é apenas da escola? Como as famílias poderiam levar isso para os filhos - muitos vivendo uma vida apenas conectada?
De forma alguma! A escola é um complemento, amplificadora e disseminadora do espírito da generosidade, da gratidão, da empatia. A escola é a disseminadora das ideias do bem viver social e individual: ensina a vivermos melhor com o que temos e somos e afirma nossas escolhas, alinhadas ao que o mundo precisa. E as artes são essenciais nesse processo. Quando as crianças são pequenas, as artes as ajudam a se conectarem e significarem o mundo de forma mais expressiva, poética, leve. Depois, quando jovens, as artes ajudam a multiplicarem suas relações com o mundo. Ampliam suas narrativas, reflexões e maneiras de se comunicarem. As famílias deveriam ser responsáveis pela estrutura onde erguerão os pilares relacionais da vida da criança. Ser modelo, ser exemplo, ser coerente, verdadeiro, corajoso para se mostrar inteiro, reconhecer erros, valorizar o simples e se conectar com afeto, com amor pelo mundo, ajuda as crianças a se tornarem adultos melhores num futuro. O mundo agradece às famílias que entendem e reconhecem sua missão!

No livro você fala ainda de parcerias entre as famílias e as escolas. Como isso seria possível no tempo “sem tempo” de hoje?
Sim. Vivemos no sem tempo. Vivemos no excesso de trabalho, de informação e de opinião. Mas... escolhemos ter filhos, não é? Ou fomos pegos de surpresa pela vida que nos chegou. E essa será, não importa a origem, a nossa maior responsabilidade. Filhos e filhas são prioridades! Não podemos deixar que nada nos afaste disso. Do contrário, corremos o risco de eles serem formados por quem não queremos.

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Como a escola e as famílias podem lidar com um conhecimento, ou acesso à informação, que vem da internet?
Acompanhamento. Sempre. Aliás, a primeira questão é não ocupar a rotina da criança e do jovem somente com os tecnológicos. Dá-me muita aflição ver crianças saindo para comer fora com seus pais e mães em um restaurante e ficarem todo o tempo grudadas no celular [veja o que fazer para seu filho largar o smarthphone]. Essa babá eletrônica abre janelas para que circule todo tipo de informação. Veja, acho importante e inevitável que as crianças entrem em contato com a tecnologia, desde que haja um olhar cuidadoso da família. Mexer no celular não é como uma brincadeira. Não se deixa a criança só com ele da mesma maneira que se deixa com os brinquedos. Assistir juntos, acompanhar o histórico de pesquisa, dar dicas de sites, jogos e vídeos podem ser algumas dicas. Como tudo que se relaciona com a educação de crianças e jovens, o adulto deve colocar como prioridade: cuidar, acompanhar e dar afeto. Lembrando sempre que o que se aprende só tem relevância se podemos transformar o meio, as pessoas e o mundo.


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