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O Nobel da Paz joga luz sobre um tema fundamental – para 2018 e para a própria instituição
Dr. Denis Mukwege, premiado este ano com o Nobel da Paz (Foto: Getty Images)

 

Denis Mukwege, é um ginecologista congolês fundador do Panzi Hospital em Bukavu, no Congo, especializado desde sua fundação em 1999 sobretudo no atendimento a vítimas de abuso sexual, muitas das quais atingidas pela guerra civil. Nadia Murad é uma ativista iraquiana pelos direitos humanos, capturada em 2014 pelo Estado Islâmico e forçada a participar de um esquema de tráfico sexual organizado pelo grupo. Após deixar o cativeiro, em 2016 ela foi escolhida a primeira embaixadora da ONU para o programa Dignidade para Sobreviventes do Tráfico Humano - um papel particularmente especial no caso de Nadia, visto que vítimas como a iraquiana tendem a ser encorajadas ao silêncio.

Nadia Murad e Denis Mukwege receberam o Prêmio Nobel da Paz na última sexta-feira (5), condecorados por oferecerem ao mundo uma "maior visibilidade" sobre o problema da violência sexual. 

"Este ano marca uma década desde que o Conselho de Segurança da ONU adotou a resolução 1820 (2008), que determina que o uso da violência sexual como uma arma de guerra e conflito armado constitui tanto crime de guerra quanto uma ameaça para a paz e segurança internacional", diz comunicado oficial do comitê sueco. "Um mundo mais pacífico pode ser alcançado apenas se mulheres, seus direitos fundamentais e sua segurança forem reconhecidas e protegidas em combate", completa.

Nadia Murad, premiada em 2018 com o Nobel da Paz (Foto: Getty Images)

 

O exemplo de Nadia é ilustrativo: calcula-se que ela e outras 3 mil mulheres da minoria iazidi que residiam no norte do país tenham sido vítimas de tráfico sexual após o Estado Islâmico ganhar território na fronteira entre Síria e Iraque em 2014, algo em torno de um ano desde que o grupo institucionalizou a prática entre seus membros. É aliada a essa filosofia que a violência sexual virou ferramenta para os combatentes. Deixada clara como o dia - a escravidão de mulheres e garotas chegava a ser estampada em campanhas oficiais do Estado Islâmico -, ela funcionava como maneira de recrutar novos soldados e como ferramenta de terror. 

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Denis Mukwege e Nadia Murad superaram uma lista de outros 300 nomeados, entre eles o Papa Francisco, o líder nortecoreano Kim Jong Un, o presidente sul-coreano Moon Jae-in e o americano Donald Trump.

Um olhar para dentro

O assunto mais amplo da violência sexual, resgatado este ano através de movimentos como o #MeToo e o mais recente caso de Brett Kanavaugh, juiz nomeado para a Suprema Corte americana, também é caro para o comitê desde o adiamento do Nobel de Literatura este ano. A decisão foi tomada depois de 18 mulheres virem a público em novembro do ano passado com acusações de abuso sexual praticadas por Jean-Claude Arnault, fotógrafo, empreendedor cultural e marido da poeta Katarina Frostenson, um dos membros da Academia Sueca, responsável por decidir o prêmio de literatura todo ano.

Os episódios pelos quais Arnault responde se deram no decorrer de 20 anos e incluem ao menos uma acusão de estupro, caso que levou o fotógrafo a ser sentenciado na última segunda-feira (01) a dois anos de prisão. Desde 2017, sete dos 18 membros da academia resignaram e a Fundação Nobel congelou seu patrocínio. A academia, criada em 1786 pelo rei Gustavo III, segue respondendo à coroa, que chegou a cogitar seu fechamento. Por ora, dois laureados devem ser anunciados em 2019 para o Nobel de Literatura.

 

 


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