“Os filmes dele são muito atuais e precisam ser vistos”, diz Myra sobre a obra do pai, Hector Babenco | Noticias

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“Os filmes dele são muito atuais e precisam ser vistos”, diz Myra sobre a obra do pai, Hector Babenco
Héctor Babenco e Myra Arnaud Babenco (Foto: Divulgação)

 

Myra Arnaud Babenco, filha do cineasta Hector Babenco e da galerista Raquel Arnaud, restaurou Pixote - A Lei do Mais Fraco, e tem o projeto de fazer o mesmo com as demais obras de seu progenitor.

Em um bate-papo exclusivo com a GQ Brasil, ela fala sobre a importância da arte em sua vida - "nasci dentro dela" - e da urgência da filmografia de seu pai, falecido em 2016: "Os filmes dele são muito atuais e precisam ser vistos". Leia a entrevista na íntegra:

Ao revisitar obras de Hector Babenco - como Pixote, já foi restaurado - quais memórias pessoais você resgata também destes filmes (e das épocas em que foram feitos)?
Restaurar os filmes do meu pai é uma forma de manter ele vivo através da sua obra. Além da importância pessoal, existe uma função educativa destes longas para a sociedade brasileira e para uma visão internacional do nosso país. O olhar dele é de grande força e clareza retratando os nossos problemas sociais. Infelizmente, nossa situação não mudou e está pior. Realmente acredito que esses filmes, hoje, podem ser de extrema importância para a conscientizar e, consequentemente, promover alguma mudança.

Marília Pêra em Pixote (Foto: Divulgação)

 

Conseguiria escolher entre os filmes dele o que mais toca você? E por quê?
Bom, o Pixote, A Lei do Mais Fraco (1980) me toca muito pois eu tinha quase a idade do menino [o Fernando Ramos da Silva] na época. Amo a forma como o filme acontece, não consigo imaginar nenhuma mudança nele; já O Beijo da Mulher-Aranha (1985), filmado no Brasil e falado em Inglês, lida com a realidade de dois presos completamente diferenes dividindo uma cela. E foi a primeira vez que um filme feito fora dos Estados Unidos acabou indicado nas principais categorias do Oscar - melhor filme, diretor, roteiro e ator. O William Hurt [o protagonista], inclusive, ganhou o Oscar de melhor ator. Também foi o primeiro beijo homossexual nas telas de cinema. Logo depois vem Ironweed (1987), outro trabalho maravilhoso com Jack Nicholson e Meryl Streep (veja dez atores estrangeiros que brilharam em filmes nacionais). Nesta novela de William Kennedy, Jack é um pai de uma família tradicional que deixa seu bebê cair no chão; a criança morre e ele não consegue mais viver naquela casa. Então vira um mendigo e conhece a Meryl.... Este é outro filme muito forte. Brincando nos Campos de Senhor (1991) foi rodado na Amazônia e é muito lindo, tem cenas incríveis. E Lucio Flavio, o Passageiro da Agonia (1977) retrata a história real do esquadrão da morte, similar ao nosso PCC de hoje. 

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Cartaz do Filme O Beijo da Mulher-Aranha (Foto: Divulgação)

 

De que forma o trabalho do Hector Babenco influencia sua visão de cinema?
Desde pequena falava: “Pai, você só faz filme triste”. E perguntava: “Quando você vai fazer um com final feliz?” Quando terminou o Meu Amigo Hindu (2015), ele me disse: “Fiz o filme com final feliz que você pediu”.

Willem Dafoe e Maria Fernanda Cândido em Meu Amigo Hindu (Foto: Divulgação)

 


Como produtora de cinema, como vê o momento atual da indústria brasileira?
Não pretendo produzir nenhum filme até conseguir o restauro da obra completa do meu pai. Os longas dele, que são muito atuais, precisam ser vistos pelo público com menos de 40 anos. Mas acho que hoje o mercado está cheio de filmes sem importância. Parece até que estou escutando ele falar. 

O cinema para você é um sonho? Onde você quer que os filmes te levem?
O cinema, para mim, é uma forma de se conhecer, de viver uma outra pessoa, de aprender, viajar. A tela grande, o mergulho, a emoção de ver um filme e ser tocado em duas horas e mudar sua a vida. Enfim, é uma forma de viver e sonhar.

Meryl Streep em cena de Ironweed (Foto: Divulgação)

 

Você é uma das sócias da galeria Raquel Arnaud desde 2009. Como analisa o mercado da arte na última década?
Bem, eu amo a arte, cresci com ela, nasci dentro dela. Acho que não posso fugir. Minha mãe foi uma mulher que iniciou a arte contemporânea no Brasil nas décadas de 70 e 80, mesma época que meu pai fazia seus filmes. Tenho muito orgulho e sou muito grata a eles. Sinto que o que eles construíram é minha responsabilidade perpetuar (e divulgar para gerações futuras). O mercado de arte também está com muita informação: galerias, artistas etc. Por isso, acredito na "aquietação" da mente e na seletividade na arte. As pessoas precisam aprender a se ouvir internamente, somos um ser único - cada um com um sonho, com uma história, com uma vida.


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